Meu primeiro barraco.

30 03 2009

em um programa sobre luxo, tinha um cara que ia construir uma casa na região da sardenha. ele dizia: “quero morar como os antigos camponeses” e mandou fazer a casa toda em pedra, com uma varanda imensa que tem uma jacuzzi fabulosa. é, esses antigos camponeses sabiam viver.

adoro notícias “do Brasil e do mundo”. falei.

Nem terá muito prelúdio, o texto de hoje. Porque eu tô nervosa, tira a mão de mim, eu tô calmíssima. Grrrrrrrrr.

Após um jantar LOOOOSHO, com companhias LOOOOSHO, em um restaurante com heliponto LOOOOOSHO [ok, não usamos o heliponto, mas a presença de um deles contribui para o contexto de glamour], eis que acordo no dia seguinte com… sons de marretadas. Eu, ingênua e bucólica, julgava que 2008 já tinha fechado a conta.

BUT NO.

[SÉPIA] Desde tempos imemoriais, o apartamento de cima tá em obras. Sério, até postei sobre isso, years ago. Sério, era MAIO do ano passado. [/SÉPIA] O lance é que hoje eles tavam quebrando os recordes mundiais e estavam quase chegando ao meu quarto, tamanha a violência com que eles batiam. Comecei a ficar com medo, reclamei com a mamãe. Eu não sei o que um pedreiro visualiza, pra encontrar tanta satisfação ao demolir uma parede. Se eu fosse sogra deles, andaria com um ramo de arrudas imenso, incorporado ao penteado.

Quem me conhece, sabe que eu sou delicadinha e tolerante ao extremo. A comida do restaurante tá ruim? Peço outra ou vou embora, na boa. A pessoa me entregou uma coisa fora do prazo? Não vou brigar pelo passado, it’s ok, vamor ver o que é possível fazer. Os chefes gritam no celular? Imagino diversas frases grosseiras, tipo “Não é mais prático você sair na esquina e urrar?”, mas coloco meu ipod no último volume, com sons da natureza. Pronto. Tipo, eu fujo do cajá e do stress, sempre. Desafio as leis da física, diante de tanta paciência abrigada no um metro e pouco de meu ser. Então, para chegar ao ponto de eu sair da minha casa no dia 30 de dezembro pra fazer uma reclamação e armar um barraco com desconhecidos, é porque a coisa TRANSCENDEU. Era a linha tênue entre a reforma e a destruição. Nem a mensagem de fim de ano da Globo poderia me demover da idéia de resolver a situação no grito e na raça.

Eu bati à porta do vizinho de cima com tamanha violência, que o pedreiro podia pensar que era o Thor, com 1,90m, luvas de boxe, irritado. Ou o Jack Nicholson, com um machado em punho. Quando ele abre, era EU, mó cacheadinha, mas com a cabeça fritando no óleo quente do ódio. Aí eu BERRO:

- O QUE TÁ ACONTECENDO AÍ? EU QUERO SABER! [50 decibéis]

E saí entrando no apartamento, até o cômodo que corresponde ao meu quarto. Outro cara tava fazendo aquela prospecção de pré-sal, derrubando o muro de berlim, aquele completo escândalo, só pra trocar O RODAPÉ do lugar. Eu BATI PALMAS, à la Coringa, e ele parou o serviço e olhou para trás. Perguntei se ele sabia que havia uma família de cinco pessoas [o Elvis está incluído, lógico] TENTANDO morar no apartamento de baixo. E ele, com aquela malemolência típica de pedreiro e aquela risadinha marota de canto de boca, respondeu que “sim, senhora”. E eu gritei de novo:

- POIS NÃO PARECE! [60 decibéis]

E saí explicando, andando pela casa alheia, cheia de cimento e fiação espalhados por toda parte, que eu tava reclamando era da intensidade das batidas e não das batidas ou da obra em si. Disse: ‘olha, ano passado o piso inteiro da minha casa foi trocado, os rodapés também, a gente ficou no apartamento de baixo e jamais escutamos marretadas como essas dos senhores. Um carnaval desses, pra remover um rodapé? Vocês aprenderam a fazer obra aonde???’ [70 decibéis]

Aí o cara retruca:

- Mas é o nosso trabalho, o que a senhora quer que eu faça?

Ele fez essa pergunta umas oito vezes, e eu respondendo que tava reclamando era da intensidade das batidas e não das batidas ou da obra em si.

Na nona vez, eu perguntei:

- O SENHOR QUER QUE EU DESENHE NUM PAPELZINHO, QUE EU NÃO ESTOU RECLAMANDO DA SUA OBRA?? [80 decibéis]

Aí ele jura que não tava batendo forte e que, SE APARECER UMA RACHADURA no meu quarto, que eu o chame.

- RACHAR?? SE RACHAR MEU IMÓVEL, EU CHAMO É A POLÍCIA! O SENHOR NÃO SABE DO QUE EU SOU CAPAZ! [quebrou o medidor de decibéis]

Eu devia estar tão vermelha quanto o cenário do programa da Marcia Goldschmidt. O vermelho é a cor dos paninhos que atiçam os touros. O vermelho é a cor que simboliza o barraco na numerologia, nas runas, no tarô. Quando me dei por satisfeita, saí e deixei o cara falando sozinho. E ele colocou a cara pra fora da porta e falou:

- Vaaaaai, menina MAL EDUCADA!

[pôr-do-sol no velho oeste, começa a ventar, tufo de mato passa e eu risco a faca]

- COMO É QUE É? [90 decibéis]

E ele teve a PETULÂNCIA de repetir. E eu gritei:

- FELIZ ANO NOVO PRO SENHOR, PASSAR BEM! [100 decibéis]

Meu, que ódio. Saí pisando forte, derretendo de tanta ira, robótica de tanta tensão. Nem massagem de pedras quentes rola fazer, nesse calor, nesse ritmo quente. Grrrrrrrrrrr.

Mentalmente, desejei sete hemorróidas a todos eles – é o numero de letras do meu nome.

Certamente, vocês não me reconheceriam.

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cooper, ola de calor


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